O impacto da ansiedade na autoconfiança: como quebrar este ciclo
- 7 de dez. de 2025
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A ansiedade não se limita a gerar preocupação, mal-estar ou sintomas físicos em determinado contexto. A ansiedade tem um impacto profundo e muitas vezes impercetível na nossa confiança.
Quando o corpo está em constante estado de alarme, a mente passa a funcionar segundo uma lógica de ameaça. Tudo é analisado sob o filtro do “e se corre mal?”. E, sem que a pessoa se aperceba, começa a duvidar de si própria, a evitar situações e a acreditar que é frágil, incapaz ou insuficiente.
A ansiedade faz a pessoa evitar o que mais teme
Evitar é uma das respostas humanas mais naturais. Quando sentimos medo, o corpo quer afastar-se daquilo que perceciona como ameaça. Quem tem ansiedade social, por exemplo, pode recusar convites ou permanecer em silêncio em encontros sociais. Quem sente ansiedade no trabalho adia tarefas, e-mails, reuniões. Quem teme sensações físicas, como o coração a acelerar, evita exercício ou situações emocionais intensas.
E no momento em que uma pessoa evita, sente alívio. Contudo, é exatamente por isso que é tão perigoso. Por alguns segundos ou minutos, o corpo descontrai e a mente relaxa. Parece ter sido a decisão certa.
O evitamento envia ao cérebro uma mensagem perigosa: “não sou capaz”
O alívio imediato funciona como um reforço interno. A pessoa não tem consciência disso, mas o cérebro está sempre a aprender através das consequências. Quando evitamos algo e sentimos alívio, o cérebro associa: “Se eu precisei de fugir, é porque não conseguiria lidar.”
É uma aprendizagem subtil, quase invisível. Mas é aqui que a autoconfiança começa, lentamente, a desgastar-se. O cérebro não distingue ameaça real, de ameaça emocional percecionada. Ele sabe apenas que evitámos. E se evitámos, é porque havia perigo. Mesmo que esse perigo nunca tenha, de facto, existido.
A sensação de incapacidade faz aumentar os níveis de ansiedade
Quanto menos enfrentamos as situações, mais ameaçadoras elas se tornam. Isto é válido para: falar em público, expressar uma opinião num determinado grupo, conduzir, lidar com conflitos, tomar decisões, ou simplesmente sair de casa em dias maus.
A ansiedade cresce porque o cérebro deixa de ter experiências de sucesso face a situações que causam desconforto.
Com a sensação de incapacidade instalada, surgem pensamentos de desvalorização
A partir deste momento, a mente começa a produzir interpretações negativas que parecem pensamentos isolados, mas que são consequências diretas do evitamento, como: “Eu não consigo”; “Eu sou fraco/a”; “Vou falhar outra vez”; “Não tenho capacidade para lidar com isto”.
Estes pensamentos não surgem porque a pessoa é assim, mas porque o cérebro já recebeu demasiadas mensagens internas de que ela não consegue lidar com determinadas situações. O evitamento foi o treinador invisível que ensinou a mente a duvidar de si.
A baixa autoestima reforça o evitamento e o ciclo recomeça
Quando a pessoa deixa de acreditar na sua capacidade, naturalmente evita ainda mais. Não porque quer fugir da ansiedade, mas porque acredita que “não tem força”. E assim o ciclo fecha-se: Ansiedade → Evitamento → Incapacidade → Baixa autoestima → Mais ansiedade
Sem intervenção psicoterapêutica, este processo torna-se automático. A pessoa já não evita para reduzir ansiedade, evita porque acredita que não consegue gerir a situação. Isto não acontece porque a pessoa perdeu capacidades, mas porque a ansiedade ocupou espaço suficiente para alterar a perceção da sua competência.
Porque falham as estratégias mais comuns para combater a ansiedade
Quando as pessoas tentam lidar com a ansiedade, é natural que procurem alívio rápido. Mas algumas estratégias intuitivas acabam por reforçar ainda mais este ciclo.
1. Evitar situações desconfortáveis
Como vimos, evitar situações desconfortáveis oferece alívio imediato, mas “ensina” ao cérebro que aquela situação é realmente perigosa. Quanto mais a pessoa evita, mais pequena se sente.
2. Distrair-se para não sentir a ansiedade
Muitas pessoas recorrem a música, redes sociais, comer, séries, ou trabalho compulsivo. A distração alivia, mas não resolve. E pior: usa-se para fugir do desconforto. A mensagem inconsciente é sempre: “Eu não posso sentir isto.”; “Eu não sei lidar com isto.”
Assim, a autoestima diminui porque a pessoa nunca tem oportunidade de confirmar que é capaz de tolerar a própria ansiedade.
3. Lutar contra os próprios pensamentos ANSIOSOS
Pessoas que sofrem com ansiedade, têm pensamentos como: “Por favor que isto passe rápido!”, “Controla-te!”, “Não penses mais nisto!”
Esta luta interna intensifica a ansiedade, porque o cérebro interpreta este esforço como um sinal de ameaça real. Quanto mais a pessoa tenta controlar os seus pensamentos, mais intrusivos e insistentes eles se tornam. Isto não é falha pessoal. É neurofisiologia.
4. “Controlar a respiração” em excesso pode piorar A SITUAÇÃO
Respirar de forma mais lenta pode, sim, ajudar em certos momentos. Mas usar a respiração como “estratégia de fuga” pode agravar a ansiedade.
Se a pessoa respira fundo repetidamente com o objetivo de “não sentir nada”, o cérebro interpreta: “Se eu preciso de controlar a respiração, é porque isto é perigoso.”
E o resultado é o oposto: a ansiedade aumenta porque o próprio ato de respirar se tornou um indicador de ameaça.
A perturbação de pânico
A perturbação de pânico é uma condição marcada pela ocorrência repetida e inesperada de ataques de pânico: episódios súbitos de medo intenso acompanhados de sintomas físicos como coração acelerado, falta de ar, tonturas, sensação de desmaio ou de perda de controlo.
O que caracteriza verdadeiramente esta perturbação não é apenas o ataque em si, mas o medo persistente de que volte a acontecer, levando a pessoa a vigiar constantemente o corpo, interpretar sensações normais como ameaçadoras e evitar situações, lugares ou atividades que possam desencadear novos episódios.
Com o tempo, este medo das próprias sensações torna-se o motor central do problema, reduzindo a autoconfiança e restringindo progressivamente a vida da pessoa.
A perturbação de pânico é talvez o exemplo clínico mais claro de como a ansiedade destrói a autoconfiança através do evitamento. Depois do primeiro ataque de pânico, o maior medo já não é o ataque em si, mas o medo de ele voltar.
E para evitar que volte, a pessoa começa a evitar supermercados, conduzir, ficar sozinha, fazer exercício físico, etc. O objetivo é sempre o mesmo: impedir que o pânico aconteça. Mas cada evitamento envia ao cérebro uma nova mensagem: “Eu não sobrevivo a isto. Eu não consigo lidar.”
O que realmente quebra o ciclo do pânico?
A verdadeira transformação acontece quando a pessoa aprende a aproximar-se das sensações em vez de fugir delas.
Não é distrair-se, nem respirar controladamente, nem lutar contra o pensamento. É permitir: deixar o coração acelerar, deixar a respiração encurtar, deixar as tonturas chegar, não evitar, fugir ou lutar.
Paradoxalmente, quando desejamos sentir as sensações físicas e psicológicas de um ataque de pânico, é quando provamos a nós mesmos que conseguimos enfrentar a situação.
O corpo aprende por experiência, não por lógica. Logo, quando a pessoa percebe que não morre das sensações, o pânico deixa de ter combustível. E quando deixa de ter combustível, deixa de ter significado. E quando deixa de ter significado desaparece.
Ao enfrentar as sensações, a pessoa envia ao cérebro a mensagem oposta: “Eu consigo.” E é aqui que a autoconfiança começa a fortalecer-se.
O que realmente melhora a autoconfiança?
A autoconfiança não melhora com frases motivacionais, distrações ou pensamentos positivos. Melhora quando o cérebro aprende, pela experiência, que somos capazes de lidar com o que sentimos. E é por isso que a recuperação da ansiedade passa sempre por: enfrentar gradualmente o desconforto, deixar o corpo sentir, reduzir o evitamento, abandonar lutas internas com os pensamentos, e permitir que o sistema nervoso reaprenda segurança.
Não é um processo rápido, nem linear. Mas é profundamente transformador. A autoconfiança cresce quando a pessoa começa a ver-se como alguém capaz, porque viveu experiências que provam isso.
Esse é o caminho para quebrar o ciclo da ansiedade e recuperar uma relação mais realista, segura e confiante consigo mesma. Cada pessoa encontra o seu ritmo, e não há um único caminho certo: há apenas o próximo passo possível.
Se este texto te trouxe clareza ou esperança, talvez possa ser útil continuares a explorar estes temas com um profissional especialista em saúde mental. Às vezes, o verdadeiro progresso começa quando deixamos de fazer este percurso sozinhos.


